The Lord Will

Estudo bíblico

O que diz a Bíblia sobre o divórcio? Escritura, interpretação e tradição cristã

Estudo bíblico sobre divórcio, separação e novo casamento: Jesus, Moisés, Paulo, exceções debatidas e interpretações confessionais.

Por Ugo Candido6 min de leitura

Quando se fala de divórcio, o cristão pode confundir três perguntas: O que a Bíblia realmente diz? O que podemos concluir razoavelmente? O que as diferentes igrejas passaram a ensinar? São questões relacionadas, mas não idênticas. Para procurar orientação, comecemos pelo texto bíblico, identifiquemos a interpretação e só depois examinemos as doutrinas confessionais.

1. O princípio: uma só carne

Génesis 2:24 apresenta o homem unido à sua mulher, tornando-se ambos «uma só carne». Jesus retoma esta passagem: «O que Deus ajuntou não o separe o homem» (Mateus 19:6). Antes de discutir quando um casamento pode terminar, Jesus recorda o que o casamento é: uma união que ultrapassa um acordo de conveniência. Malaquias 2:14–16 também condena a deslealdade contra a esposa da juventude e descreve o casamento como aliança; a tradução do versículo 16 é debatida e não deve ser reduzida a um slogan isolado.

2. Porque é que Moisés regulamentou o divórcio?

Os fariseus mencionam a carta de repúdio de Deuteronómio 24:1–4. Jesus responde que Moisés o permitiu por causa da «dureza dos vossos corações», mas «ao princípio não foi assim» (Mateus 19:8). Regulamentar uma realidade humana ferida não significa transformá-la no propósito original de Deus.

3. A exceção registada por Mateus

Mateus 19:9 e Mateus 5:32 apresentam uma exceção ligada a porneia, termo grego relacionado com imoralidade sexual. O dado textual: Mateus regista a exceção. A questão interpretativa: qual é o seu alcance exato? Diz respeito à separação, ao divórcio, ao novo casamento ou a mais do que uma destas situações? Não devemos omitir a exceção nem transformar uma interpretação denominacional nas palavras literais de Jesus.

4. Ler também Marcos e Lucas

Marcos 10:11–12 e Lucas 16:18 relacionam o divórcio seguido de novo casamento com o adultério, sem reproduzir a cláusula de Mateus. Marcos menciona também a mulher que se divorcia do marido. Os textos devem ser lidos em conjunto: Jesus não trata o fim de uma união e a formação de outra como um simples procedimento administrativo sem importância moral.

5. Paulo: separação, reconciliação e abandono

Em 1 Coríntios 7:10–11, Paulo exorta os cônjuges a não se separarem; se a separação ocorrer, fala de permanecer sem novo casamento ou de procurar reconciliação. Reconhece a possibilidade real da separação, mas não a equipara automaticamente à liberdade de voltar a casar.

Paulo considera depois o casamento com uma pessoa não crente. Se esta deseja continuar, o crente não deve dissolver unilateralmente a união. Mas, se o não crente partir, «o irmão ou a irmã não está sujeito à servidão» e «Deus chamou-nos para a paz» (1 Coríntios 7:15). O texto afirma essa ausência de servidão; a interpretação discute se daí resulta também liberdade para um novo casamento. Ver ainda 1 Coríntios 7:39 e Romanos 7:2–3 sobre o vínculo e a morte do cônjuge.

6. Apaixonar-se por outra pessoa justifica o divórcio?

Imaginemos A casado com B, que desenvolve sentimentos por C e decide divorciar-se antes de iniciar uma nova relação. A sequência civil não resolve, por si só, a questão moral. A Bíblia não apresenta encontrar alguém mais atraente ou compatível como motivo para quebrar a aliança. Em Mateus 5:27–28, Jesus aborda também o desejo sexual cultivado intencionalmente. Uma atração involuntária não é automaticamente adultério; aquilo que escolhemos alimentar, esconder e perseguir exige discernimento. Nem toda a amizade profunda é adúltera. Ver O que a Bíblia considera adultério?.

7. O que a Bíblia não regulamenta explicitamente

A Bíblia não é um código contemporâneo que detalhe cada casamento emocionalmente esgotado, dependência, coação, desaparecimento, violência ou questão de guarda dos filhos. Podemos aplicar princípios bíblicos de amor, justiça, verdade e paz, reconhecendo quando fazemos uma aplicação e não citamos uma prescrição explícita.

A proteção contra violência e abuso nunca deve ser adiada sob a suposição de que a fidelidade obriga alguém a permanecer em perigo. Procurar segurança, apoio profissional, proteção legal ou separação é uma questão distinta da eventual possibilidade doutrinal de voltar a casar.

8. Quatro níveis que importa distinguir

  1. Texto bíblico: o que está escrito, no contexto e nas passagens paralelas?
  2. Exegese: que conclusões são fortes, possíveis ou debatidas, por exemplo acerca de porneia e «não está sujeito à servidão»?
  3. Doutrina confessional: como organiza cada igreja essas interpretações?
  4. Aplicação pastoral: como lidar concretamente com segurança, responsabilidades, filhos, feridas e possibilidades reais de reconciliação?

Distinguir estes níveis não desvaloriza as igrejas. Evita dizer «a Bíblia diz» quando queremos dizer «a minha tradição interpreta a Bíblia desta forma».

9. Diferentes tradições cristãs

Catolicismo. Um casamento sacramental válido e consumado entre batizados não pode ser dissolvido por autoridade humana. A separação e, por vezes, o divórcio civil podem ser necessários para proteção legal, sem dissolver o vínculo sacramental. A declaração de nulidade reconhece que um casamento válido não chegou a existir; não é um divórcio sacramental.

Ortodoxia oriental. Afirma o ideal do casamento duradouro, mas historicamente admite divórcio eclesiástico e casamentos posteriores em determinadas circunstâncias graves, como concessão pastoral (oikonomia). Os procedimentos variam.

Protestantismo. Não existe uma regra universal. Muitas comunidades entendem a imoralidade sexual e o abandono como possíveis motivos de divórcio e, em certas condições, de novo casamento; outras adotam posições mais restritivas.

Evangélicos e pentecostais. Não constituem uma autoridade matrimonial única. As posições variam entre denominações, incluindo a abordagem ao abuso grave e ao abandono.

Também diferem as conceções de autoridade: Escritura, Sagrada Tradição e Magistério no catolicismo; Santa Tradição e vida da Igreja na ortodoxia; sola Scriptura em muitas tradições protestantes, sem necessariamente ignorar a história da teologia. Considerar toda a doutrina «meramente humana» já representa uma posição teológica específica.

10. Fidelidade, misericórdia e arrependimento

A Bíblia não ensina que o divórcio seja irrelevante nem que uma pessoa divorciada esteja definitivamente sem esperança. 1 João 1:9 promete perdão e purificação a quem confessa os seus pecados. O perdão não justifica o mal continuado, não elimina responsabilidades e não obriga a pessoa ferida a recuperar imediatamente a confiança ou a regressar a uma situação perigosa.

11. Perguntas a levar diante de Deus

O que ensina o propósito original do casamento sobre as minhas obrigações? Leio também os textos que questionam aquilo que desejo? Outra relação influencia o meu julgamento? Que proteção é necessária imediatamente, independentemente de futuras questões doutrinais? Distingo o texto da minha interpretação e da disciplina da minha igreja? Onde são necessárias verdade, justiça, arrependimento, misericórdia e paz?

Conclusão: começar pela Palavra

Génesis apresenta o casamento como uma só carne. Jesus regressa a esse ideal, distingue o propósito original da dureza do coração e fala com seriedade do divórcio e do novo casamento. Mateus regista a debatida exceção de porneia; Paulo aborda a separação e o abandono por um cônjuge não crente. Destes textos surgem questões interpretativas e doutrinas distintas.

Ler o texto, assinalar onde começa a interpretação, compreender a tradição e aplicar os princípios à vida real com sabedoria e cuidado. A pergunta mais profunda não é apenas «O que me é permitido fazer?», mas «Senhor, qual é a tua vontade e como posso agir com fidelidade e verdade?».

Leituras relacionadas: O que a Bíblia considera adultério? e Versículos bíblicos sobre o casamento e o amor conjugal.


As referências bíblicas remetem para as páginas bíblicas do site. As descrições das doutrinas confessionais são sínteses interpretativas, não citações literais da Bíblia.

Autor:
Ugo Candido
Revisado por:
The Lord Will Editorial Team, Editorial Review
Última atualização:
Revisado em: