Estudo bíblico
Acreditar que Deus existe não é o mesmo que ter fé
Acreditar que Deus existe pode ser uma conclusão intelectual. A fé se torna algo mais quando a perda, o sofrimento e a aparente injustiça tornam a realidade difícil de compreender.
Há uma diferença profunda entre acreditar que Deus existe e ter fé em Deus.
A primeira pode ser uma conclusão intelectual.
A segunda se torna significativa justamente quando o mundo deixa de fazer sentido.
Em uma entrevista sobre inteligência artificial e criatividade, a escritora Maria Popova fez uma observação intrigante: a inteligência artificial não pode experimentar a limitação humana como nós. Não pode realmente sofrer a própria impossibilidade. Não pode encontrar a perda como um ser humano a encontra.
Essa distinção vai muito além do debate sobre inteligência artificial e arte.
Os seres humanos podem perder.
Podemos perder alguém que amamos, a saúde, o trabalho, um relacionamento, uma oportunidade, um futuro que imaginávamos. Podemos trabalhar durante anos por algo e vê-lo desaparecer. Podemos orar sem reconhecer nenhuma resposta.
E porque podemos perder, podemos sofrer.
Mas o sofrimento produz uma pergunta ainda mais profunda:
Por quê?
Por que isso aconteceu? Por que foi permitido? Por que algo tão injusto aconteceu comigo — ou com alguém que não merecia?
E, por fim:
Se Deus existe, onde está Deus nisso tudo?
É aqui que acreditar em Deus e ter fé em Deus começam a se separar.
Acreditar que Deus existe é apenas o começo
Em uma reflexão anterior, Uma forma de engenheiro pensar em Deus, consideramos um caminho incomum em direção à ideia de Deus.
O conhecimento humano frequentemente avança da complexidade para a unidade: observamos acontecimentos, descobrimos padrões, formulamos leis e buscamos princípios cada vez mais fundamentais.
Por fim, outra pergunta se torna possível:
Por que existe uma realidade ordenada governada por leis?
Para o cristão, a resposta aponta para além das leis da criação, em direção ao Criador.
Mas suponha que alguém aceite esse raciocínio e diga: “Sim. Acredito que Deus existe.”
Algo importante aconteceu.
Mas a fé não necessariamente aconteceu ainda.
Uma pessoa pode acreditar que Deus existe em um sentido intelectual semelhante ao de acreditar que existem galáxias além daquilo que consegue ver com os próprios olhos.
Pode aceitar uma proposição sem se entregar a ela.
A fé começa a revelar seu caráter particular quando a crença é testada pela experiência.
Especialmente pela perda.
A perda cria uma colisão entre realidade e expectativa
Por que a perda dói tanto?
Em parte porque algo que valorizávamos já não está conosco.
Mas muitas vezes há algo mais sob a dor:
Isso não deveria ter acontecido.
Um filho não deveria morrer antes dos pais. Uma pessoa fiel não deveria ser traída. Uma pessoa boa não deveria sofrer enquanto alguém cruel prospera. Anos de trabalho não deveriam desaparecer de uma hora para outra. Uma oração sincera não deveria parecer encontrar silêncio.
Carregamos dentro de nós uma concepção de como a realidade deveria ser.
Então a realidade colide com ela.
O que aconteceu e o que deveria ter acontecido se separam.
E nesse espaço encontramos a experiência da injustiça.
A Bíblia não finge que essa experiência seja irreal. A Escritura lhe dá voz.
“Até quando te esquecerás de mim, SENHOR? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” — Salmo 13:1
Não é a linguagem de alguém explicando calmamente o sofrimento a uma distância segura.
É a linguagem de alguém dentro dele.
A Bíblia contém lamento porque a fé não exige que finjamos que a dor não dói. Não exige que chamemos o mal de bem. E não exige que compreendamos o que não podemos compreender.
A fé não é uma explicação para cada perda
Há um atalho perigoso que os cristãos podem tomar diante do sofrimento.
Algo terrível acontece e imediatamente dizemos:
“Tudo acontece por uma razão.”
Talvez a intenção seja consolar.
Mas a frase pode se tornar cruel quando finge saber algo que não sabemos.
Geralmente não sabemos por que uma tragédia específica aconteceu. Não sabemos o que Deus está fazendo através de cada doença, morte, traição, decepção ou oração aparentemente não respondida.
A fé não nos dá acesso ao mapa causal completo de Deus sobre a história.
A própria Bíblia rejeita essa simplificação.
O livro de Jó talvez seja o exemplo mais claro.
Jó perde seus filhos, seus bens, sua saúde e a estrutura da vida que conhecia.
Seus amigos tentam desesperadamente construir explicações: Jó certamente fez algo errado; o sofrimento deve corresponder exatamente à culpa; se descobrirem a regra, poderão tornar a catástrofe inteligível.
Mas estão errados.
O erro deles não é buscar significado.
É confundir sua explicação com o conhecimento de Deus.
O que Deus não diz a Jó
Perto do fim de Jó, algo extraordinário acontece.
Deus fala.
Mas não oferece a Jó o tipo de explicação que poderíamos esperar. Não lhe entrega um diagrama causal completo de seu sofrimento.
Em vez disso, começa a fazer perguntas.
“Onde estavas tu, quando eu fundava a terra?” — Jó 38:4
As perguntas atravessam a criação: a terra, o mar, a manhã, a neve, as estrelas, os animais, o nascimento, a morte, a força e o deserto.
À primeira vista, pode parecer que Deus está apenas lembrando a Jó como ele é pequeno.
Mas algo mais profundo acontece.
O campo de visão de Jó é ampliado.
Seu sofrimento é real. Suas perguntas são reais. Mas a realidade dentro da qual essas perguntas existem é inimaginavelmente maior que a parte que ele consegue ver.
Jó não recebe informação completa.
Ele é confrontado com os limites de sua informação.
Essa distinção é crucial.
O problema do observador local
Uma analogia da engenharia pode ajudar.
Imagine observar um enorme sistema dinâmico tendo acesso a apenas uma variável, de um único lugar e durante um intervalo muito curto.
Você vê:
t₀ → perda → sofrimento
Somente com essas observações, tenta reconstruir o estado, a arquitetura, a história e a trajetória final de todo o sistema.
Nenhum engenheiro sério diria que as informações disponíveis são suficientes.
O problema seria de observabilidade.
O sistema poderia conter estados que você não consegue medir, interações que não consegue ver e consequências que ainda não ocorreram.
A vida humana nos coloca em uma posição semelhante.
Experimentamos a realidade localmente. Ocupamos um corpo. Vivemos uma sequência de tempo. Conhecemos parte do passado, uma fração do que acontece ao nosso redor e não conhecemos o futuro.
Ainda assim, o sofrimento cria uma enorme tentação de inferir o todo a partir da parte:
Não consigo ver significado nisso. Portanto, não há significado nisso.
Mas a conclusão é maior que a informação disponível.
Isso não prova que o sofrimento tenha uma explicação oculta.
Faz algo mais modesto e mais importante:
deixa espaço para que ela exista.
A fé vive nessa diferença
Aqui chegamos à diferença entre crença e fé.
A crença pode dizer:
Deus existe.
A fé diz:
Não consigo ver o todo, mas confio Naquele que consegue.
Isso é muito mais difícil.
E está muito mais próximo do significado bíblico da fé.
Hebreus descreve a fé precisamente nessa tensão entre aquilo em que se espera e aquilo que se vê:
“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem.” — Hebreus 11:1
E Paulo escreve:
“Porque andamos por fé e não por vista.” — 2 Coríntios 5:7
Nenhum dos versículos pede ao crente que negue o que é visível.
Eles nos dizem que o visível não é necessariamente o todo.
A fé não finge que a perda não aconteceu. Não finge que o sofrimento é agradável. Não chama injustiça de justiça. Não inventa uma explicação e a atribui a Deus.
A fé se recusa a concluir que aquilo que podemos ver agora seja tudo o que existe.
A parte desconhecida da trajetória
Talvez possamos representar a experiência humana assim:
t₀ → perda → dor → ? → ? → ?
Conhecemos o começo porque o vivemos.
Conhecemos a dor porque estamos dentro dela.
Mas a trajetória continua além da nossa observação presente.
Não sabemos qual será o próximo estado.
Às vezes, anos depois, descobrimos consequências que jamais poderíamos ter previsto. Uma perda muda uma direção. Um fracasso evita outro. O sofrimento produz compaixão. Uma porta fechada conduz a algum lugar aonde nunca teríamos ido voluntariamente.
Mas o cristianismo também deve ser cuidadoso aqui.
Nem toda ferida recebe uma explicação nesta vida. Nem toda tragédia se torna compreensível em retrospecto.
Algumas perguntas continuam sendo perguntas.
A esperança cristã não depende de um dia descobrirmos a utilidade oculta de cada acontecimento doloroso.
Ela depende de Deus.
Essa é uma afirmação muito mais forte.
A fé não precisa chamar a injustiça de boa
O cristianismo não resolve o sofrimento declarando que tudo o que acontece é bom.
A Escritura contém dor demais para isso.
Os profetas condenam a injustiça. Os Salmos protestam. Jó clama contra o sofrimento. Jesus chora.
E no centro do cristianismo está a Cruz: um homem inocente injustamente condenado, torturado e morto.
A fé cristã, portanto, não pode simplesmente significar: “Na verdade, nada está errado.”
O Evangelho diz algo radicalmente diferente.
Algo pode estar genuinamente errado e ainda assim não ter a última palavra.
A Cruz é seguida pela Ressurreição.
Isso não torna a crucificação boa.
Significa que Deus não é derrotado por ela.
E talvez essa seja uma das respostas mais profundas do cristianismo ao sofrimento:
não que o mal seja secretamente bom,
mas que o mal não é definitivo.
“Todas as coisas contribuem juntamente para o bem”
Um dos versículos mais citados sobre sofrimento também é um dos mais fáceis de reduzir a um slogan:
“Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus.” — Romanos 8:28
Paulo não diz que todas as coisas são boas.
A distinção importa.
O capítulo fala de sofrimento, fraqueza, gemidos, esperança e de uma criação que ainda não é o que será.
“Toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.” — Romanos 8:22
O cristianismo não nos pede que olhemos para o sofrimento e o chamemos de felicidade.
Pede que acreditemos que o sofrimento existe dentro de uma realidade maior que o sofrimento.
A afirmação cristã não é:
Todo acontecimento é bom.
É:
A capacidade de Deus de redimir é maior que o acontecimento.
A diferença entre ver e confiar
Se pudéssemos ver toda a trajetória de nossa vida, compreender cada consequência, conhecer o futuro e perceber a realidade da perspectiva de Deus, algo essencial da fé desapareceria.
Teríamos informação.
Mas a fé existe precisamente porque não temos.
Por isso o sofrimento pode se tornar um limiar espiritual tão profundo.
Antes do sofrimento, uma pessoa pode acreditar: Existe um Deus.
Depois do sofrimento, a pergunta se torna:
Posso confiar Nele quando não consigo compreendê-Lo?
É uma pergunta completamente diferente.
É possível responder intelectualmente à primeira e lutar desesperadamente com a segunda.
A Bíblia conhece essa luta.
A fé não é a ausência dessa luta.
Às vezes, a fé é aquilo que permanece dentro dela.
Jesus não removeu o sofrimento da fé
O versículo mais curto da Bíblia também é um dos mais importantes para compreender o sofrimento cristão:
“Jesus chorou.” — João 11:35
Jesus sabe o que está prestes a fazer.
Lázaro ressuscitará.
E mesmo assim Jesus chora.
Esse detalhe é extraordinário.
Saber o que vem depois não torna irreal a dor presente.
Se nem mesmo a ressurreição torna as lágrimas inadequadas, os cristãos não precisam se envergonhar do luto.
A fé não anestesia o ser humano.
Não torna a perda indolor.
Dá à dor um lugar para existir sem permitir que ela defina toda a realidade.
Talvez seja isso que confiar realmente significa
Frequentemente imaginamos a fé como certeza.
Mas talvez a confiança se torne significativa justamente onde termina a certeza.
Se compreendo tudo, não preciso confiar. Se controlo tudo, não preciso confiar. Se consigo ver toda a estrada, não preciso de alguém para me conduzir pela escuridão.
A fé começa onde termina meu campo de visão.
Isso não significa abandonar a razão.
Significa reconhecer uma das conclusões da própria razão:
meu conhecimento é incompleto.
E a partir daí o cristianismo pede algo que a razão sozinha não pode produzir.
Confiança.
Não confiança de que nada doloroso acontecerá. Não confiança de que toda oração será respondida como esperamos. Não confiança de que compreenderemos cada perda.
Confiança em Deus.
A crença diz que Deus existe. A fé diz: confiarei Nele
Talvez a distinção possa ser expressa de forma simples.
A crença diz:
Existe um Deus.
A fé diz:
Eu me entregarei a Ele.
A crença pode nascer contemplando a ordem do universo.
A fé é testada quando nossa pequena parte desse universo parece desordenada.
A crença olha para as estrelas e pergunta quem as criou.
A fé permanece diante de um túmulo e pergunta se o Criador ainda pode ser digno de confiança.
A segunda pergunta não pode ser respondida tão casualmente quanto a primeira.
A perda a torna pessoal. O sofrimento a torna custosa. E a incerteza nos impede de reduzir a fé ao conhecimento.
Vemos apenas parte da trajetória:
t₀ → perda → dor → ? → ? → ?
A fé cristã não preenche esses pontos de interrogação com respostas inventadas.
Deixa-os onde estão.
Mas coloca algo além deles.
Deus.
E talvez esse seja um dos significados mais profundos de andar por fé e não por vista:
Não sei o que não consigo ver.
Não chamo o mal de bem.
Não finjo que a perda não dói.
Não afirmo compreender aquilo que Deus não explicou.
Mas me recuso a fazer dos limites da minha visão os limites da realidade.
Acreditar que Deus existe é uma conclusão sobre a realidade.
Ter fé é algo mais.
É confiar Nele quando a realidade, do lugar onde estamos, já não parece fazer sentido.
- Autor:
- Ugo Candido
- Revisado por:
- Equipe Editorial da The Lord Will, Revisão editorial
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